130 A agonia crônica de Dalton

          Apesar de a família morar na mesma cidade, seus integrantes pouco se falavam. Pouco que se resumia em saber como anda a lojinha da Gilda (isso é, se ainda não faliu), se o marido da Lucimara tinha comprado outro carro (e endividado o casal) e o rumo dos filhos do Sérgio (qualquer fofoca envolvendo drogas, homossexualidade ou brigas era válida).
        Porém era no Natal em que se reuniam para o update anual. Na chegada, as mulheres obedeciam ao ritual: beijinhos, olhada geral no modelito e um “olha só para você!” olhando nos olhos (porque se não olhar...). Os homens se preocupavam em chacoalhar bem as mãos – os relógios novos tinham que aparecer, claro.
          E lá também estava o adolescente subversivo da família. Depois das saudações iniciais, cada um ia para um canto cantar vantagens e proclamar troféus. Ele andava de cômodo em cômodo e procurava um encaixe.
          - Ô Dante, traz um copo de cerveja para mim!
          - É Dalton, tio. Vem daquele químico.
          - Ah... E aí, Dalton, vai trazer o copo ou não?
         Queria dizer não. Na verdade, queria dizer não para todos e tudo aquilo. Caminhou pela casa e descobriu que nesse natal a prima era a estrela: ia a um cômodo e criticavam-na por causa do decote – “pouca vergonha...” – no outro, todavia, era alvo de elogios e elogios. No natal passado foi a Gilda, no antepassado seu irmão, e por aí vai. Entretanto, ele nunca tinha sido a estrela.
          Mas o cume da falsidade iria começar. O amigo oculto, ah, o amigo oculto. Começavam o “meu amigo oculto é...” e ele morria um pouco por dentro. Chamavam sua tia Gertrudes de “uma pessoa muito saudável”. Quando veriam que a mulher era obesa! Beirava os 90 quilos: obesa! O tio Marcelo era descrito como “sério, inteligente”. Quando veriam que era um caso de transtornos obsessivos, e quiçá psicopatia?
          A indignação foi tomando conta de si. E foi crescendo, lhe possuindo e...
          - Acho todo mundo hipócrita.
         Viu olhos surpresos. Correu e jogou a vasilha com o salpicão no chão, pegou a de farofa, lançou em 360° e no final derrubou os copos de vidros alinhados como dominó. Saiu correndo enquanto ouvia ao fundo que “o Dante tinha enlouquecido de vez”.

EDIT: aproveitando o espírito de Natal, um texto tão antigo, mas tão verossímil!

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