123 Trecho de “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera

Trecho de “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera:

          É um amor desinteressado: Tereza não pretende nada de Karenin [sua cadela]. Nem mesmo amor ela exige. Nunca precisou fazer as perguntas que atormentam os casais humanos: será que ele me ama? será que ele gosta mais de mim do eu dele? terá gostado de alguém mais do que de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, o avaliam, o investigam, o examinam, será que não ameaçam destruí-lo no próprio embrião? Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reivindicações, desejando apenas sua simples presença.

          Mais uma coisa: Tereza aceitou Karenin tal qual é, não procurou torná-la sua imagem, aceitou de saída seu universo de cachorra, não desejou confiscar nada dela, não sente ciúmes de suas tendências secretas. Se a educou, não foi para mudá-la (como um homem quer mudar sua mulher e uma mulher seu homem), mas apenas para ensinar-lhe uma linguagem elementar que lhes facilitasse a convivência e a compreensão.

          E mais, seu amor ao animal é um amor espontâneo, não é forçado por ninguém. (Mais uma vez Tereza pensa na mãe e sente uma grande tristeza: se ela fosse uma daquelas mulheres desconhecidas do lugar, sua alegre grosseria talvez lhe fosse simpática! Ah! Se ao menos sua mãe fosse uma estranha! Desde a infância Tereza tinha vergonha de que os traços de sua mãe ocupassem seu rosto, confiscando seu eu. E o pior, é que o imperativo milenar “Ame seu pai e sua mãe!” a obrigava a aceitar essa ocupação, e a chamar de amor essa agressão! A culpa não era da mãe se Tereza rompera com ela. Não rompera com sua mãe porque ela era como era, mas porque era sua mãe.)

          Mas sobretudo: nenhum ser humano pode oferecer ao outro o idílio [que é uma imagem do Paraíso, do homem vivendo em uma felicidade eterna]. Só o animal pode, porque não foi banido do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução. Em torno de Tereza e de Tomas, Karenin traça o círculo de sua vida, baseada na repetição, esperando deles a mesma coisa.

          Se Karenin fosse um ser humano e não um animal, certamente já teria dito a Tereza, há muito tempo: “Escuta, não acho graça de todos os dias ter que levar um croissant na boca. Não poderia descobrir uma brincadeira diferente?” Essa frase contém toda a condenação do homem. O tempo humano não gira em círculos, mas avança em linha reta. Por isso o homem não pode ser feliz, pois a felicidade é o desejo da repetição.

          Sim, a felicidade é o desejo da repetição, pensa Tereza.

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