Um medo: morrer de repente. Não por “morrer” e nem por “de repente”, mas por duas implicações: se acontecesse hoje, #1: eu provavelmente não seria cremado e #2: eu morreria com muitas e poucas histórias só para mim.
#1: quando eu partir, quero ser cremado junto com a Jennifer, minha bolinha de tênis, e lançado bem, bem longe de minha casa. Se possível, gostaria que não houvesse um funeral pelo fato de eu detestar essa prática, e nem demonstrações públicas digitais de que sentem minha falta (entenda: fechem meu Facebook).
Entretanto, tenho que admitir que essa primeira implicação é puramente irracional. Não devo ser cremado porque morrer virando cinzas é bem caro, e um funeral é 90% certo. Porém, morto, não terei que me preocupar com meu corpo ou com Jennifer. Então isso é só um capricho, na verdade.
#2: tem tanta coisa que eu queria compartilhar e ouvir que eu e você (talvez) nunca teremos a oportunidade (ou a coragem) de contar... Morrer de repente seria ruim porque me privaria de te encher os ouvidos com filosofias e psicologias de bases duvidosas que eu tanto gosto, e eu também queria saber mais de você antes de partir (mas não tudo, quero deixar alguma coisa para a imaginação).
Planejei escrever um texto final, um testamento/carta póstuma contando as minhas histórias, para que eu esteja preparado para morrer de repente, se é que isso é possível. Mas tem um problema: é difícil escrever sobre esses contos bobos (mas alguns bons) que a Jennifer sabe e você não. Não devia ser, eu acho, mas é. E isso leva a outra implicação.
Um paradoxo: eu tenho medo de não compartilhar minhas histórias por conta de minha morte, mas também não tenho certeza de que consigo compartilhá-las antes dela.
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