NA IDA
parte 1 de 3
O calor era infernal, a família parecia celebrar o tédio e eu precisava fazer alguma coisa. — Vou sair – pra onde? – Diamond Mall, é fácil chegar lá de ônibus – fazer o quê? – tomar um sorvete – com quem? – vou mandar mensagem para um amigo. Tomei banho, troquei as roupas, peguei uma mochila, coloquei um livro dentro, perdi o horário do ônibus e não obtive resposta. Sair sozinho pode ser meio deprê, não? — Mas eu vou. Peguei o carro e saí.
No volante, lembrei que não sabia chegar lá de carro. Sou péssimo com direções (geográficas e automobilísticas). Decidi então deixar o carro em frente à casa do mesmo amigo do parágrafo acima, já sabendo que teria que teria que andar um bocadinho. Estacionei, desci do carro, e aí lembrei: não sabia chegar a pé a partir dali.
Decidi ligar para esse amigo em busca de direções. Direções dadas, expliquei: parei o carro na porta de sua casa – “ah...”, vou sozinho – “hm...”, não tenho um objetivo bem definido – “sei...” e depois silêncio. Um pouco mais de silêncio. “Então falou!”, e comecei minha caminhada.
A verdade é que eu sabia como chegar lá (não exatamente, mas eventualmente eu sei que eu chegaria), acho que liguei mesmo buscando companhia. Ali, na Amazonas, foi onde me dei conta de que estava saindo sozinho. Não tinha quase ninguém na rua, era domingo à tarde. E eu ali, meio deprê, sozinho.
Consigo ouvir seu pensamento daqui: “e por que você não pediu companhia?”. Às vezes um orgulho bobo toma conta da gente, sabe? E acho que eu queria ser um pouco descolado, como aquele tipo de pessoa que está bem consigo mesma e não precisa dos outros.
Só que eu não sou assim, infelizmente.
NO DIAMOND
parte 2 de 3
Chegar ao shopping foi fácil, era só seguir uma rua. Não havia uma alma viva nela além de mim, com a mochila e o livro dentro. Devo confessar: tenho uma péssima mania de andar rápido para chegar aos locais. Não consigo me controlar. Atrasado ou não, sempre tenho essa urgência e acabo chegando suado. Detesto isso. Assim, cheguei ao Diamond pingando suor.
E agora? Primeira parada e objetivo inicial: uma casquinha. Desci até o primeiro piso e a fila estava grande. Gostei, assim eu podia pensar no que fazer em seguida. Casquinha comprada, decidi procurar pela livraria de lá. Eu sabia que ela ficava em um canto, mas não sabia qual era o andar. Subi e rodei o segundo piso – sempre controlando os passos, que insistiam em serem rápidos. “Calma, relaxa, você não tem nada para fazer”.
Nada no segundo piso, vamos para o terceiro. Nunca gostei de olhar vitrines – não tenho paciência mesmo – então não me restava muito que fazer a não ser andar. “Devagar, Pedro, devagar!” Observava as pessoas, a arquitetura, pensava em escadas rolantes espirais. Seriam práticas? Seriam bonitas.
Nada no terceiro, de volta ao primeiro. Eu não tinha dado a volta no primeiro, e quando o fiz, voilà! Lá estava a Saraiva, no canto, como eu previ. E agora? Entrei. Não sabia ao certo o que procurar, fui em “literatura estrangeira” para procurar qualquer livro do Bukowski, mas não encontrei nenhum. “Quê isso, não tem Bukowski aqui” e me senti meio Cult, sabe? Foi até legal. Dei uma olhada aqui, uma olhada ali, e nada me chamou a atenção. Então, de súbito, saí.
Saí e logo vi quatro poltronas em cima de um tapete quadrado, cada uma em um vértice e três delas ocupadas. Fui até lá e me tornei o quarto ocupante; sentei, peguei o livro de minha mochila e olhei as horas. E fiquei meio chocado: não fazia uma hora desde que eu saí de casa. Pareceu muito mais, mas não, uma única horinha.
Comecei a ler. Não pude evitar pensamentos do tipo “será que vou esbarrar em alguém?” ou “será que meu amigo vai aparecer aqui de surpresa?”, mas não dei muita corda para eles. Expectativa só gera desilusão, não é? E mergulhei no livro.
NA MÚSICA
parte 3 de 3
Um senhor parecia rondar as poltronas. Quando o ocupante da que estava em minha frente levantou, o velho logo tratou de sentar. E eu só espiando.
A música ambiente era da Adele, e ele batia os pés no chão na batida das músicas. Depois o som mudou, mas ele ainda batia os pés. Aí o som parou – as batidas, porém, não. Passou uma criança pequena, e ele a chamava com uma voz esganiçada: “ô menininha, ô menininha!”, mas ela nem chegou perto.
Tentava focar na leitura, mas não conseguia imaginar o que aquele velho teria vindo fazer no Diamond, sozinho. Nenhuma música para acompanhar suas batidas com os pés, nenhum livro nas mãos para esconder seu ócio, mexendo com as criancinhas que passavam... Será que ele não tinha ninguém para fazer algo com ele ao invés de ficar ali, à toa?
Foi aí que comecei a engolir minhas palavras. Eu, criticando o velho, mas fazendo a mesma coisa que ele. Sozinhos naquele shopping, sentados naquelas poltronas, o que me distinguia dele era um livro, a idade e um pouco de eloquência. Só isso. Será que ninguém quis sair com ele? Será que ele também não pediu companhia? Seria ele algum tipo de espelho, um espelho que mostrava um futuro?
A música voltou, era aquela famosa do Jobim, Wave. A melodia era bonita, mas me esqueci do resto quando ouvi: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho...”. “É impossível ser feliz sozinho”, repetia mentalmente. Seria o senhor da frente feliz? O encarei por um momento. “É impossível ser feliz sozinho...”
Levantei subitamente. — Já deu, quero ir embora, ninguém vai aparecer mesmo. Já ia completar uma hora e meia. Decidi voltar para o carro por um caminho diferente, passando por duas avenidas. Queria ver movimento, queria ver gente. Andei, suei, e nada da música, do velho e da solidão saírem da minha cabeça.
Cheguei ao carro e logo coloquei música. Liguei para uma amiga. — Tô ligando à toa mesmo. “Ih, então não dá para falar não. Tchau!” Começou a tocar Set Fire to the Rain. Esperei uns dez minutos dentro do carro. Olhava o portão do prédio, o movimento na Amazonas, os militares que ali passavam. Não sei ao certo o quê eu estava esperando.
No volante, não importava o cantor, “é impossível ser feliz sozinho”. Será mesmo? Acho que estou a ponto de descobrir.
Nenhum comentário:
Postar um comentário