133 Antisocial

Chegamos, música alta – sertanejo? Não, não gosto, mas não posso pedir para mudarem. O que fazer? Deve ter uns seguranças na porta. Eles me intimidam um pouco. Onde que pega a comanda/ingresso? Siga alguém, siga o Chi.

Entramos. Nossa, tem muita gente. O sertanejo continua tocando. O pessoal vai para algum lugar. Segue eles, rápido. Começo a olhar para as pessoas. Acho que eles estão olhando para você. Não, ninguém tá reparando em mim. O pessoal decide estacionar.

E então, o que cada um vai beber? Bebida alcoólica ou refri? Peço refri. Os caras que pedem cerveja parecem olhar com uma cara de “que jovem...”. Diz que tá dirigindo. É uma desculpa boa, não é? Penso em escrever um texto sobre isso.

Tem muita gente aqui. A Ju quer dançar. Sertanejo. Você pode escolher um dos três temas: coração partido / ele está afim de uma mulher / ele possui qualidade X e por isso as mulheres estão afim dele. Você não tem paciência para isso. Chi tenta me animar e me dá um tapinha no ombro. “Fala aí Pedro!” Faz cara de empolgação. Digo “uhul”. A exclamação não sai. O pessoal começa a dançar.

Como dançar? Um passinho para o lado, um passinho para outro, e olha para cima. Cara, você está ridículo. Todo mundo deve estar começando a ficar bêbado. A Sikita olha para mim cantando sertanejo. É um convite para você cantar com ela? Dou um sorriso e tento esboçar alguma letra de música. Não dá, cara. Abortar missão, abortar missão! Balanço a cabeça, sorriso amarelo: não sei nenhuma letra.

Agora é a vez da Su: “e aí Pedro? Tem que parar com esse negócio de antisocial!” Se fosse tão fácil quanto falar... A Ju dança junto com a Sikita. O Chi conversa com o Doc. Eu olho as pessoas. Arranja alguma coisa para fazer! Pergunto para a Ju onde é o banheiro.

A Ju responde: “Ah, Pedro, eu acho que é para lá”. Para qualquer “lá” que for tem muita gente. Vai ter que se torcer e ficar achando o caminho para não trombar e encostar muito em alguém. Adoro achar esses caminhos – me sinto em um jogo – mas detesto ter que me contorcer para não ter que falar “licença” para as pessoas. Não por falar “licença”, mas sim por falar com as pessoas.

“Ah, deixa.” A Ju olha para mim com cara de incompreensão. “Uai Pedro, vai lá!” Ela já está adaptada ao local. Vai nesse banheiro logo porque senão ela vai começar a falar. “Você vai ficar com vontade, então?” Vou ao banheiro. Eu olho as pessoas dançando e se divertindo.

Vou achando o caminho até o banheiro. Penso em níveis de adaptação ao local como se fossem níveis de jogo. Ela já tá no nível 3, você ainda tá no 1. Quando as pessoas passam de nível, elas não querem socializar com níveis menores. Talvez você devesse se posicionar na entrada, lá só deve ter nível 1. Chego na frente do vaso e não sai nada.

Volto para a aglomeração do pessoal. Não encontro a Ju, o Chi, a Su. A Sikita está conversando com um cara. Pergunta para alguém onde eles estão, anda! Vou até o Max. “Eles foram comprar refri, já devem estar voltando.” Tem uma rodinha. Uns amigos dele estão conversando.

Eu conheço alguns, já fui colega deles. O assunto é sobre como um deles bebeu e fez uma coisa que podia dar errado, mas não deu. Ou então é sobre uma mulher gostosa. Sempre vai ter bebida e mulher.

Um deles me pergunta “e aí, o que cê tá arrumando?” Responde qualquer coisa menos “nada”. “Ah, tô no CEFET.” Aí começa o papo que eu já decorei. “Engenharia de Produção Civil.” “É tipo uma Engenharia Civil com matérias de Produção.” “Não, mas no CEFET tem mulher sim! Na minha sala, é 50/50”. Sempre volta para bebida ou mulher.

Penso em contar alguma história. Suas histórias de bebida e mulher se resumem em um sábado de manhã buscando no Google “como curar ressaca” e como você NÃO pegou aquela menina. Tento me lembrar dos meus casos. Teve aquela vez na aula de Cálculo III... Muito nerd. Aquela vez quando a Ju... Muito pessoal. E aquela vez que a Jey... Não pode ficar falando sobre isso. Minha prima me contou que uma vez o namorado dela teve que mijar na pia do banheiro. Ótima! Fala que foi você! Mas eu não consigo.

A Ju, a Su e o Chi demoram. O papo na rodinha continua. Todo mundo contribui para o assunto. Menos você, que tá parecendo mudo! Tem muita gente aqui. A Sikita ainda continua a conversar com o cara. Vai pegar, vai pegar, vai pegar, vai pegar... Ih! Pegou.

Olho para as pessoas. Vejo a Sikita beijando. Queria beijar também. Tem umas mulheres aqui perto. Penso em chegar em alguma. E dizer o quê? “Oi?” É, “oi”. Olha para você: um tanto de espinha e seu cabelo com certeza tá desarrumado. Cogito falar que me disseram que eu beijo muito bem. Vai lá campeão! “Oi, meu nome é Pedro, tem como a gente beijar primeiro e depois conversar?” Serial ideal.

A Su e o Chi voltaram. Aleluia irmãos! “Fala aí!” É o Chi de novo tentando me animar. A Su diz para a gente ir dançar. Vai lá, vai fazer o passinho da vela. Eu vou, não posso mais continuar mudo naquela rodinha. Começa uma música mais lenta. Ainda é sertanejo. Olho ao redor e constato com só tem casal. Menos você.

A Su e o Chi dançam juntos. Olho as pessoas. Procuro a Ju desesperadamente. Putaqueopariu, onde essa menina se meteu? Me dá vontade de gritar pela Ju. A Su e o Chi dançam e agora se beijam. Olho ao redor. Ladies and gentlemen, Su and Chi are still kissing! Ju, onde você está? A Su percebe que eu tô sem rumo, pára de dançar/beijar o Chi e tenta criar uma conversa. Se eu fosse o Chi, eu te matava, Pedro! É, eu também.

A Ju chega. Tão esperada quanto o menino Jesus. Ela me conta porque demorou, mas não interessa: ela está aqui. Fala uns “ahans” para ela ver que você está interessado. Tem muita gente aqui, mas tá todo mundo bêbado agora. Ainda toca sertanejo. A Sikita volta para o grupo. Fofocas sobre o cara. Yes! Hora de ouvir sobre um cara mais sortudo que você.

A Su e o Chi já estão cansados. Sabe o que isso significa? É, tá quase na hora. A Ju ainda tenta dar uma dançada. E ela canta. Eu não sei as letras. A Su e o Chi sentam. Hora de falarmos sobre o quanto estamos cansados. Você vai brilhar nesse assunto, Pedro!

A Su olha para o Chi. É agora, tô sentindo. Ela está apoiada nele. Flexiona a cabeça, dá uma olhada no ambiente. Muita gente. Bêbados. Olha para o Chi de novo. Faz um olhar de cansaço misturado com dengo. Três, dois, um, e... “Vamos?” Fogos de artifício! Só falta o Chi confirmar com a cabeça. Ele confirma. É isso aí pessoal, vamos embora!

Vamos pagar. A fila é grande. Não tem problema, cara, a gente vai embora! A fila demora. Não sei direito com proceder. Siga alguém, siga o Chi. Pago. Fico na dúvida se foi um bom negócio. Sertanejo tocando. É, acho que já sei a resposta. Saímos. Acabou, cara!

Nos despedimos do pessoal. Ju e Su dizem: “tá vendo, você sobreviveu!” É, é, que seja, tchau! Dou tchau, até amanhã. Vou para o carro. O Chi e o Doc estão comigo. Vou dirigindo. O Chi vai me falando onde é enquanto ele e o Doc conversam.

Chego na casa do Chi. O Doc vai dormir lá também. Mas eu quero dormir lá também. Lembro que não posso. Estou com o carro. Dá ele pro Doc, deixa ele aqui na rua, sei lá! Se o Chi falar “dorme aí, cara”, eu durmo. Tapinha o ombro e “aquele abraço, cara”. É hora de ir para a casa. Quero escrever um texto.

Em casa. Minha vó diz que eu demorei. Você sempre demora, Pedro. Tiro essa roupa correndo. Ligo o computador. Abro o Microsoft Word. Quero escrever sobre socialização, decepção, e blá-blá-blá. Não sai muita coisa. Tô meio deprê. Busco no Google algumas coisas randômicas. Olho para o Word de novo. “Deseja salvar as alterações em Documento1?” Não.

˄ O QUE TERIA ACONTECIDO ˄

˅ O QUE ACONTECEU ˅ 

Em casa. Minha vó diz que eu demorei. Você sempre demora, Pedro. Tiro essa roupa correndo. Ligo o computador. Abro o Microsoft Word. Quero escrever sobre socialização, decepção, e blá-blá-blá. Não sai muita coisa. Tô meio deprê. Busco no Google algumas coisas randômicas. Olho para o Word de novo. “Deseja salvar as alterações em Documento1?” Sim.

Um comentário:

Judas forever disse...

Escrevi um comentario no celular, mas nao foi publicado.
Depois eu recomeço meu raciocinio. Desde já adianto que gostei da sua imaginação embasada em fatos muito reais. Eu pude ver a historia acontecendo... isso porque talvez eu, realmente, já a tenha visto :P
hsuahsuahsuahs