065 Trágica escolha de um brinquedo

Acho que captei a profundidade mascarada de Toy Story.

Ser um brinquedo é ter uma vida trágica. No começo, tudo é de grande deslumbramento. Você foi escolhido, entre tantos, para ser aquele que proporciona a alegria, o prazer da brincadeira. E depois são bons, bons tempos – brincadeira, diversão, você está nos holofotes, você vai estar do lado dele sua vida toda!

Até o dia em que eles vão chegando. Novos escolhidos, brinquedos que proporcionarão o prazer que você fez ficar banal. Você ficou ordinário. Ainda é especial, afinal, ele tem a comodidade de saber que você estará ao lado dele por uma vida inteira! Mas ele tem novos brinquedos. Você é um dos escolhidos. A gama de opções dele cresceu. A sua não.

A atenção dele vem quando ele repara em você, nota uma peça quebrada, e te pega apenas para consertá-lo. Então, surge a idéia de quebrar mais vezes, para obter esse resquício de atenção; mas sabe que se quebrar demais, essa atenção também se tornará banal. Banal. Pode você, brinquedo, viver sabendo que sempre importará com que não se importa tanto quanto ti? Pode viver sabendo que, com o tempo, tudo se tornará banal?

Então é você, no fundo da estante, fingindo a banalidade de que está tudo bem, quando na verdade não está. Tudo está desaparecendo, desmoronando aos poucos; logo os novos escolhidos sofrerão também: ele repetirá o ciclo de novos brinquedos (e, posteriormente, novos jogos, novas bandas, novos hobbies) eternamente. E no fim, o brinquedo é apenas uma história boa, daquelas que se compartilha em um momento saudosista.

E então? Vale curtir o momento em que se está nos holofotes, sabendo que no fim você é apenas uma boa história, ou é melhor desaparecer logo da estante, quebrar múltiplas vezes e esperar até que te joguem fora?

Não queria ser um brinquedo para ter que escolher (porque, sinceramente, eu não saberia).

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