E tudo ao redor de repente sumiu. Eu a vi. Andei rápido. Lá estava ela – dentro da Ellus, vestindo um manequim branco, vermelha e preta, xadrez. Usada com uma camisa de cor neutra por baixo, sem estampas – xadrez não vai com estampas. Eu, ela. Olhei o preço – por duzentos e quarenta e nove, eu a adquiria. É muito, muito. Mas não posso dizer que não tenho. Talvez se eu parcelar… Então eu percebi. O preço não era o único vilão dessa história de amor. Percebi que tinha algo por trás daquilo, ou melhor, pela frente: a vitrine.
Aquele tênue pedaço de vidro que me separava do que mais desejei naquele momento. Se eu tivesse aquela xadrez, ah, com certezas tudo melhoraria, sim. Dobrando a manga até o biceps, combina-la-ia com aquelas minhas blusas pretas e brancas, e com a cinza também, claro. No inverno, a usaria com manga comprida, e construiria um look alternativo, chiq a lá Clark Kent em Smallville, que atrairia todos os olhares. Não só Paris estaria em chamas, a França inteira seria incendiada, quiçá a Europa!
Mas aquela vitrine ainda se mantinha entre nós dois. Se ao menos eu pudesse atravessá-la… Passar pelo vidro e pegar… Mas percebi que, mesmo se enfrentasse a vitrine e a partisse em pedaços, pisasse em cima daquele preço estúpido, eu teria que arrancá-la do úlimo grande inimigo: o manequim. Aquele manequim branco que nem fazia uso dela. Ou melhor, fazia sim: no fundo de seu coração de gesso e no meio do seu cérebro maquiavélico, ele usava minha xadrez como poderosa arma para disparar desdém e sarcasmo para mim. “Eu tenho e você não tem, meu bem.” E ele devia adorar ficar ali, parado, exibindo a camisa que cairia perfeitamente em mim.
Ah, aquele xadrez vermelho e preto, os duzentos e cinquenta salgados, aquela vadia da vitrine e o manequim filho da mãe. Um dia, ah, um dia, eu voltarei até a Ellus, pisarei em cima do preço, comprarei todas as peças que vestiam o manequin e sairia quebrando a vitrine. Sim, o dinheiro será pisado, a vitrine será quebrada e o manequim ficará pelado – e eu os humilharei na frente de todos, de todos!!!
(Longa pausa dramática.)
E enquanto esse dia não chega, eu sabia para onde iria. Uma terra onde os manequins são de plásticos e felizes, as roupas feitas para as camadas populares e os preços convidativos e sorridentes. Sim, minha gente, eu fui para a Renner.
Nenhum comentário:
Postar um comentário